Vou logo avisando: não sou médico, psiquiatra ou psicólogo, nem enfermeiro sequer eu sou. Sou filósofo sim, não da faculdade, mas do livre pensar. Portanto, acautele-se para essa leitura, arme-se dos pés à cabeça e traga consigo todos os seus preconceitos e formadas opiniões. Vamos guerrear!
As impressões que doravante vou dar são da pura, atenta e crítica observação da palavra DEPRESSÃO, desse conceito, dessa doença que provei um “tiquim” e vi instalar-se feroz em alguns parentes e amigos do coração.
Notei que ela é realmente diferente de todas as outras. É definitivamente uma doença que depende em grande parte do doente para ser curada. Aí você vai dizer:
—Mastoda doença depende do paciente para ser curada!
Eu não vou discordar se você me disser:
—Um corte na perna, sem cuidados, curativos e boa assepsia pode infeccionar, pode até evoluir para uma gangrena e resultar na perda do membro e talvez até na morte do paciente.
Mas aí eu vou refutar e dizer a você que, mesmo que esse paciente “não queira”, “não tenha vontade” de cuidar dessa ferida, posso eu cuidá-la contra a vontade dele. Nem que para tanto eu precise chegar a amarrá-lo no leito. Ainda que ele grite aos prantos que quer morrer de infecção pustulenta, eu posso cuidá-lo. Mesmo que depois de cuidar de sua ferida e vê-la seca e sarada, ele me esmurre a cara e pule lépido do vigésimo andar de seu prédio. Daquela ferida da perna eu posso cuidar contra a vontade dele. Mas...
Como se amarra o pensamento triste de alguém e o força a tomar um remedinho para voltar a sorrir? Onde está esse remédio senão dentro do paciente?!
Como se pode forçar alguém a ver que é amado, querido e sua vida é necessária e cheia de sentido, se o amor é tão concreto quanto o invisível ar que respiramos? Onde está esse remédio senão dentro do paciente?!
Como se pode teimar com alguém que, derramando rios de lágrimas, afirma convicto que não há razões racionais para estar como está? Como resolver tal paradoxo? Onde está esse remédio senão dentro do paciente?!
Como mostrar o espelho para alguém sem meter o dedo na dolorosa ferida e provar que, para os descendentes que se espelham em seu exemplo de vida, ficam temerosos de um futuro final tão negro e sombrio escondido no fundo dos genes? Onde está esse remédio senão dentro do paciente?!
Como dizer para alguém tão fragilizado, melindroso e inteligente que a vida não sabe o que é justo, nem cruel, nem belo, nem nobre ou heroico? Como dizer que são conceitos meramente antrópicos, próprios apenas do homem? Como dizer que a vida tem querer e o querer da vida é viver? Minha avó vai fazer cem anos! Pergunte-a se pensa em morrer? Onde está esse remédio senão dentro do paciente?!
Como explicar para vocês que quando escuto a palavra DEPRESSÃO me vem à mente a palavra CLEPTOMANIA?
Cleptomania é doença exclusiva de rico, ou pelo menos, dos bem remediados. Pobre não! Pobre jamais obterá um laudo psiquiátrico de cleptomania! Pobre que tem: “[De clepto- + -mania.] S. f. Psiq. 1.Impulso mórbido para o furto; clopemania”. (do dicionário Aurélio) é automaticamente diagnosticado como ladrão. Vai preso e leva uma “mão de peia”. Será que estou exagerando?
Como explicar para vocês outra dúvida: será que pobre tem DEPRESSÃO?: “[Do lat. depressione.] S. f. 9. Psiq. Distúrbio mental caracterizado por adinamia, desânimo, sensação de cansaço, e cujo quadro muitas vezes inclui, também, ansiedade, em grau maior ou menor 10. Fig. Abatimento moral ou físico; letargia” (do dicionário Aurélio).
Ou terá mau humor? Cara feia? Preguiça? Corpo mole? Falta de ânimo? Indolência ou lassidão?
Fico pensando se o consultório de pobre é a mesa de um bar, se o psiquiatra é uma garrafa de cachaça. Se a sessão etílica de psicodrama, de tão realista, inclui uma peixeira afiada de doze polegadas, que não raro, põe fim à depressão e ao depressivo. Mas o terapeuta sempre escapa incólume.
Fico pensando no esforço hercúleo que esse pobre depressivo pobre exerce toda inexorável manhã para por o pé no espinhento chão. Será que se olha no espelho ao escovar os dentes? Será que escova os dentes? Será que liga para o odor acre do sovaco colado em seu nariz no ônibus apinhado? Será que tem vontade de mandar seu riquinho chefe à merda? Será que seu coração humano fica oprimido? Angustiado? Dolorido? Será que ele chora escondido?
Fico pensando nos tempos antigos. Pensando num Nero entediado. Que teria sido ele? Um DEPRESSIVO? PSICOPATA? ESQUIZOFRÊNICO? “Queimo ou não queimo Roma? Faço um bacanal ou empalo um dos meus servos sexuais?”
Fico pensando por outro lado num soldado romano prestes a sair numa campanha bélica, acometido de DEPRESSÃO. Pobre coitado, se desanimado não seguisse a ordem de ataque de seu comandante, morria na espada do amigo; se desmotivado e capiongo cumprisse a ordem, morria na lança do inimigo.
Portanto, fico pensando que não importa muito se a DEPRESSÃO é uma doença dos tempos modernos ou novo título pomposo para uma velha doença do homem. O que importa é questionar se a química de sua cura reside no laboratório secreto da vontade do paciente. Se assim for, onde está esse remédio senão dentro do próprio doente?!
Resta saber se ele encontra sozinho ou vai pedir ajuda. Mas isso também só depende de sua vontade.
Posso obrigar outro homem a fazer o que desejo, mas nunca poderei obrigá-lo a desejar o que ele não quer.
A vontade é seu animal selvagem: dome-a ou ela o dominará.
30 de maio de 2010,
Louis de Montagne.